Pesquisadora da UEL utiliza física nuclear para analisar cerâmicas arqueológicas do Rio de Janeiro

Ela utilizou conceitos da física nuclear para estudar cerâmicas arqueológicas de mais de 200 anos encontradas próxima às senzalas de duas fazendas de Campos do Goytacazes, no Rio de Janeiro. 
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15/03/2022 - 17:20
Editoria

Nem sempre a hipótese levantada para um estudo é confirmada ao final da pesquisa científica. Mas esse caminho abre a possibilidade de novas investigações, como indica a pesquisa conduzida por Cheila Sumenssi de Araujo, no Programa de Pós-graduação em Física (mestrado)/Centro de Ciências Exatas (CCE) da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

Ela utilizou conceitos da física nuclear para estudar cerâmicas arqueológicas de mais de 200 anos encontradas próxima às senzalas de duas fazendas de Campos do Goytacazes, no Rio de Janeiro. 

A hipótese inicial para este estudo era de que as peças, como pratos e utensílios, teriam sido produzidas pelos escravos, de forma completamente artesanal com argila das fazendas Colégio dos Jesuítas e São Bento. A tese foi levantada pelo arqueólogo Luís Claudio Symanski, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que identificou os materiais em 2012.

Atualmente, eles fazem parte do projeto “Café com açúcar: arqueologia da escravidão em uma perspectiva comparativa no sudeste rural escravista, dos séculos XVIII e XIX”, considerados um dos primeiros projetos da América Latina pensado na cultura e dinâmica social dos escravos. 

Em contato com professor sênior da UEL, Carlos Roberto Appoloni, do Departamento de Física, do CCE, foi iniciada a parceria para análise das peças. Sob orientação do professor Appoloni e Renato Akio Ikeoka, do mesmo Departamento, Cheila Sumenssi fez uma comparação entre a argila das fazendas e as peças de cerâmica.

Para isso, desenvolveu a pesquisa por meio da arqueometria, definida como aplicação de técnicas da física e da química para a análise de materiais arqueológicos, sendo possível extrair informações tecnológicas, culturais e históricas.

As amostras foram submetidas a um feixe de raio X e a energia liberada por elas foi captada por um computador, que identificou o elemento químico ali presente. Segundo as análises, as peças cerâmicas apresentaram composição química diferente da argila das fazendas, pois estas últimas estavam com maior concentração de ferro.

Com isso, ficou comprovado que elas não foram produzidas pelos escravos naqueles locais. “Mostra que era muito mais complexo a relação entre os brasileiros naquela época”, indaga a pesquisadora. “Por isso é importante entender quem eram pessoas, as famílias, as relações que tinham entre si. Isso precisa ser lembrado”. 

De acordo com Cheila, esse estudo interdisciplinar valoriza a cultura e a história de negros e escravos. Ela relata que antes da década de 1970, as pesquisas identificadas no Brasil eram apenas estatísticas, encontradas em registros de compra e venda pelos donos das fazendas.

DOUTORADO – Pela relevância do tema, Cheila Sumenssi vai conduzir uma pesquisa paralela ao seu projeto de doutorado sobre as peças cerâmicas das duas fazendas do Rio de Janeiro. O objetivo é identificar se são da mesma origem das utilizadas pelos escravos. Há uma nova hipótese de que foram produzidas em uma olaria localizada perto das fazendas.

No doutorado, ela também segue um estudo interdisciplinar que tem o objetivo de analisar cerâmicas do Peru datadas com mais de 4 mil anos.

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