Conquista sobre aftosa tem 50 anos e envolve vacina na serragem e palestras em igrejas; veja linha do tempo

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© Jose Fernando Ogura/AEN

A conquista do certificado de livre de febre aftosa sem vacinação e da criação de um dos mais bem estruturados sistemas de sanidade animal do País tem as digitais de vários atores, tanto do setor público quanto privado do Paraná, e remonta há mais de 50 anos. Não é triunfo particular, mas uma das maiores vitórias coletivas conseguidas pelo Estado.

O primeiro registro de aftosa no Brasil remonta a 1895, com a descoberta do vírus no Triângulo Mineiro. Houve mobilização nacional imediata com reestruturação do Ministério da Agricultura em 1909 e atenção prioritária para a doença. Em 1934, é regulamentado o Serviço de Defesa Sanitária no Brasil e, logo depois, foi criado o Centro Pan-Americano de Febre Aftosa (Panaftosa), mesmo período em que se começou a produzir a vacina.

As campanhas com vistas à erradicação da aftosa tiveram início efetivo em 1963. Dois anos depois, o Paraná fez a primeira. Mas, naqueles anos, a pecuária nacional era incipiente, com técnicas que não garantiam muita sobrevivência aos animais. Além disso, as doenças, entre elas a aftosa, eram recorrentes, as informações não chegavam com facilidade às propriedades e os métodos de controle, incluindo a vacinação, ainda não estavam assimilados pelos pecuaristas.

No início dos anos 70, o governo federal coordenou as ações por meio do Grupo Executivo de Combate à Febre Aftosa (Gecofa), contando com a ajuda dos servidores de governos estaduais.

No Paraná, a Secretaria da Agricultura ganhou, em 1976, o Departamento de Fiscalização (Defis), com atenção na defesa sanitária animal e vegetal. No princípio, os obstáculos eram grandes, particularmente em razão de deficiências de locomoção, pouca infraestrutura para armazenamento e aplicação das vacinas, além da desconfiança.

O médico veterinário Ângelo Gabossa Neto entrou na campanha em 1973, na região de Dois Vizinhos. A equipe era pequena, com mais um auxiliar de escritório e três ajudantes de campo. Mas crescia bastante nos três períodos anuais de vacinação quando havia o treinamento de outros auxiliares.

“A gente ia de propriedade a propriedade com o carro da campanha”, relembra. O Jeep preto do Ministério da Agricultura era reconhecido de longe. “O pessoal era muito desconfiado e quando encostava o carro preto, alguns até omitiam os nomes verdadeiros”.

Mas o Jeep era estratégico para enfrentar as estradas de então. Na época em que atuava na região, Gabossa Neto tinha a tarefa de imunizar cerca de 80 mil bovinos. “Os vacinadores chegavam à propriedade com a caderneta onde estava anotada a quantidade vacinada na etapa anterior”, destaca.

VACINA NA SERRAGEM – Semanalmente, era preciso rodar nas sedes municipais para controlar a temperatura das vacinas. Na ida ao campo, elas eram acondicionadas em caixas de isopor com gelo e serragem. “Dessa forma, era possível manter, no mínimo, por dois dias”, lembra o veterinário.

A desinformação aliada à baixa qualidade da vacina não facilitava o trabalho dos servidores estaduais. “Muitos produtores achavam que era melhor passar querosene na nuca do boi ou fazer simpatia para evitar a febre aftosa”, diz Gabossa Neto. “Às vezes tinha ameaças, mas a gente ia, conversava, tomava chimarrão e café para tentar convencer”.

Segundo ele, o bom relacionamento com as lideranças municipais foi importante desde o começo para vencer as barreiras iniciais. “O padre passava a programação das missas nas capelas e íamos juntos, enquanto ele atendia confissões nós fazíamos palestras”, recorda. “A Secretaria também tinha uma turma pegadeira, pessoas que vestiam a camisa e faziam da campanha a vida delas”.

MELHORA NA VACINA – Até 1979 não houve, de certa forma, grande progresso no controle da enfermidade e chegou-se a constatar, naquele ano, 1.436 focos. No início dos anos 80, a vacina ainda não estava totalmente assimilada e os focos da doença se multiplicavam no Estado. O médico veterinário Onésimo Locatelli estava locado, nesse tempo, na região de Barracão, no Sudoeste, próximo à fronteira com a Argentina, onde a febre aftosa também se alastrava.

“As dificuldades eram grandes, muitos focos, três ou quatro vacinações ao ano, e muitos questionamentos, pois não protegia quase nada e, em alguns casos, chegava a dar choque anafilático em animais”, conta. “Havia 30 mil propriedades rurais e o descrédito era muito grande, um tempo difícil”.

A melhoria nas vacinas, que passaram a aquosas e, logo depois, a oleosas, foi acompanhada de um aumento sucessivo da confiança dos produtores. As campanhas de vacinação começaram a ser feitas duas vezes ao ano. Os focos visivelmente reduziram, o controle do trânsito melhorava. O Brasil começava a expandir o comércio e os olhos se voltaram para o exterior.

Campanha de vacinação foi substituída pelo cadastramento. Foto: Jaelson Lucas/AEN

COMPROMISSO – Mesmo com a aceitação, a Secretaria da Agricultura do Paraná reforçava o trabalho em prol da defesa sanitária. As barreiras sanitárias foram ampliadas, com atuação intensa da Claspar, empresa classificadora extinta, e os controles se estenderam para as exposições-feira e leilões.

“Entrou em campo a habilidade dos médicos veterinários de saber conversar, usar rádios, palestras e reuniões”, afirma Locatelli. “As sociedades rurais, os sindicatos, as entidades e federações abraçaram a causa”.

Os pecuaristas, de forma individual, também começaram a buscar a vacina. “Eles perceberam que eram os grandes beneficiários, os produtores abraçaram a causa e essa foi a transição bonita disso”, acentua o veterinário.

Segundo ele, de uma hora para outra e de forma natural o percentual de vacinações saltou de cerca de 30% para 95% - marca alcançada até as últimas campanhas. “Os produtores vacinavam com a gente ou independentemente da gente”, salienta. “A Secretaria teve sempre bons profissionais, bons funcionários, bons vacinadores, um pessoal que vestia a camisa, e temos que tirar o chapéu para eles”.

As dificuldades foram molas que impulsionaram ainda mais os envolvidos no processo a planejar e executar a construção de um dos melhores sistemas de vigilância sanitária do País. “Trouxemos a zero essa enfermidade, com a estratégia adequada àquela época e com a crescente confiança e engajamento dos produtores”, salienta o secretário de Estado da Agricultura e do Abastecimento do Paraná, Norberto Ortigara.

VIGILÂNCIA SANITÁRIA – A chegada dos anos 90 trouxe a obrigatoriedade de os produtores vacinarem os rebanhos, que se reforçou em 92, com o programa nacional de erradicação da doença. Em 1995, após novos focos no Estado, o setor se mobilizou e, com a cooperação entre os diversos atores do processo, foi criado o Fundo de Desenvolvimento da Agropecuária do Paraná (Fundepec).

Ele reúne instituições representativas de produtores rurais e da indústria, para promover o desenvolvimento e aperfeiçoamento da pecuária, produção vegetal e defesa sanitária. O fundo conta, atualmente, com cerca de R$ 80 milhões. Dois anos depois nascia o Conselho Estadual de Sanidade Agropecuária (Conesa), reforçando ainda mais a conexão entre poder público e iniciativa privada nessa questão.

Com o desenvolvimento do Estado, o avanço tecnológico nas propriedades e a mudança no perfil do pecuarista, que passou a mirar com mais atenção o mercado exportador, a vacinação dos rebanhos virou rotina. Parte da estratégia para universalização da prática foi o fomento para criação dos Conselhos Municipais Sanitários Agropecuários, decisivos no combate à doença.

Em dezembro de 2011, a defesa sanitária vegetal e animal ganhou em agilidade e profissionalismo com o surgimento da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar). Vinculada à Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento, a entidade autárquica passou a ter patrimônio e receitas próprias, além de autonomia administrativa, técnica e financeira para realizar os trabalhos.

E, para culminar com o avanço, entre 2007 e 2018 o Estado vem obtendo índices acima de 96% de vacinação nos animais, sem registrar nenhum novo foco. O indicador varia de 96,37% em 2012 a 98,9% em 2018.

RETA FINAL – O último foco isolado de aftosa relatado no Paraná é de 2006, em São Sebastião da Amoreira. A partir daí, não se observou mais nenhuma circulação viral no Estado, mas a vacina continuou a ser aplicada duas vezes ao ano até maio de 2019.

Em outubro daquele ano, a ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, por meio de instrução normativa, autorizou o Estado a encerrar o processo de vacinação. Novamente contou a favor do Estado a união de todos os elos da cadeia pecuária, que fez o Ministério antecipar o cronograma para o Paraná.

A vacinação foi substituída pela obrigatoriedade do cadastro de rebanho, realizado em novembro de 2019, em maio e novembro de 2020, e, neste ano, em uma única vez, nestes meses de maio e junho.

O Estado do Paraná conta com um rebanho bovino de 9,3 milhões de cabeças. Segundo estimativa da Secretaria de Agricultura e do Abastecimento, 2,5 milhões de matrizes compõem o rebanho de corte.

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